Brasileiro “previu” existência de 9º planeta; busca existe desde o séc. 19

A divulgação na última quarta (20) de que o Sistema Solar pode ter um nono planeta mexeu com comunidade astronômica e com os interessados pelo assunto. O papo, contudo, não é uma novidade como se imagina. O astrônomo brasileiro Rodney Gomes do ON (Observatório Nacional) já havia feito um estudo bem semelhante ao divulgado por Mark Brown e Konstantin Batygin, do Instituto de Tecnologia da Califórnia, em 2012, durante apresentação em reunião da Sociedade Americana de Astronomia.

Astro seria 10 vezes mais maciço do que a Terra, com órbita de 15 mil anos. Alinhamento de objetos além de Netuno seria 'rastro' trilhado pelo planeta.

Astro seria 10 vezes mais maciço do que a Terra, com órbita de 15 mil anos.
Alinhamento de objetos além de Netuno seria ‘rastro’ trilhado pelo planeta.

Também por meio de cálculos matemáticos e de observação de objetos estranhos no chamado Cinturão de Kuiper (área que se estende desde a órbita de Netuno até um pouco além, na região de Plutão), o brasileiro identificou que a existência de um planeta distante exercendo força gravitacional poderia explicar porque a órbita desses objetos segue um padrão que não seja uma coincidência.

Rodney confirma: de fato, o novo estudo é bastante semelhante ao seu. “De certa maneira ele é semelhante porque eles também observam uma característica diferente desses objetos. É bastante semelhante, mas o trabalho dos dois consegue tirar mais algumas conclusões, dá a órbita. Mas eles se focam em outra direção. Eu me focava apenas na quantidade de certos objetos que foram achados até hoje, eles focam na órbita específica. No meu trabalho, a órbita estava bastante indeterminada, havia evidências de um planeta em uma certa distância e massa”, explicou ao o astrônomo.

O modelo inicialmente apresentado na reunião ganhou mais corpo e virou um artigo científico na respeitada publicação internacional Icarus, voltada para a astronomia, em setembro de 2015. Não à toa, o estudo de Rodney Gomes, assinado em conjunto com Jean Soares e Ramon Brasser, foi citado com certo destaque dentro da pesquisa que rodou o mundo na última quarta e que lançou os telescópios na busca do planeta.

“O acordo entre os cálculos teóricos e os dados são mais do que satisfatórios e são totalmente consistentes com a recente análise de Gomes (2015), que também analisou a população (de objetos) e concluiu que isso poderia ser melhor explicado pela existência de um planeta distante”, diz o estudo dos cientistas, com um link para o estudo do astrônomo nacional.

Como será a caçada ao novo planeta? Você poderá participar?

Como será a caçada ao novo planeta? Você poderá participar?

A pesquisa apresentada nesta semana vai um pouco além do que a do brasileiro, mas parte do mesmo princípio que Gomes imaginou por meio de cálculos matemáticos. De fato, o estudo de agora é baseado em menos objetos do que anteriores – apenas seis, que são vitais para a estatística de 0,007% para que tudo seja apenas uma coincidência. Mesmo assim, Rodney, cujo estudo relatava 92 objetos, confia que os dados estejam corretos.

“Não é só exatamente a quantidade de objetos que são usadas para a estatística, mas o que cada objeto indica. Acho que as contas dele estão corretas, embora eu use mais. A única coisa que me pergunto é se existiria outra razão dinâmica deles alinharem. Ele (Brown) descartou objetos porque ele queria objetos que fossem estáveis, então analisou vários que poderiam ser influenciados por esse planeta e descartou porque mudavam a órbita por causa de nossos planetas. Achei um critério razoável. Não sei se tem algum truque. Mas pode ser um pontinho fraco. Eu teria perguntado mais sobre esse critério, deixado mais claro”, opinou Rodney.

Outros estudos

Obviamente, o brasileiro não é o pioneiro na busca por este planeta –  ele apenas observou e constatou que existem mais objetos fazendo uma órbita estranha do que deveriam existir segundo teorias anteriores. De fato, a busca pelo chamado “Planeta X” se estende desde o século 19, quando o astrônomo Percival Lowell percebeu uma suposta perturbação na órbita de Netuno e iniciou uma caça em busca do nono planeta. Construiu um observatório apernas para isso, onde em 1930 Plutão seria achado por Clyde Tombaugh.

A busca teria se acalmado até que a descoberta de Eris (pelo mesmo Mark Brown do estudo desta semana) fez Plutão ser rebaixado para “planeta-anão”. A descoberta e a observação do comportamento de outros objetos no Cinturão de Kuiper (como o candidato à planeta-anão Sedna e outros de nomenclatura alfanumérica, principalmente o VP113, descoberto em 2012) deram início, então, a uma nova caçada que fomentasse as teorias de (ao menos) um outro planeta no nosso Sistema Solar, mas bem mais longe do que os oito já conhecidos.

A própria introdução da pesquisa desta semana cita outros estudos envolvidos. Os cientistas Trujillo e Sheppard já davam indícios em publicação na Nature em março de 2014, a partir do estudo de outro objeto, que “algo interessante” poderia ocorrer mais longe no Universo para que as órbitas elípticas fossem tão coincidentes, prevendo uma perturbação de algum corpo externo.

Outra pesquisa, liderada por Carlos de la Fuente Marcos com ajuda de outros cientistas internacionais e divulgada em publicação da Sociedade Real de Astronomia, abordava o mesmo assunto, mas previa não um, mas pelo menos dois planetas um pouco maiores do que a Terra em um espaço além de Plutão.

Diversos cientistas, como o respeitado italiano Lorenzo Iorio, formularam teorias e criaram artigos que contribuíram como elementos para a pesquisa de Brown e Batygin desta semana. Todas são citadas até os astrônomos explicarem como funciona a sua teoria própria já com a órbita do suposto planeta, que dá mais certeza à pesquisa, mas também levanta muitas outras dúvidas.

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